O PIB e as principais componentes

Desde o ano de 2000, o PIB a preços constantes cresceu a uma média anual de
apenas 0.3%, embora com dinâmicas distintas ao longo deste período. Este baixo cres-
cimento radica em razões de contexto, como a entrada da China na OMC no início deste
milénio, com um forte impacto negativo em vários setores de atividade onde Portugal tem
uma forte especialização, mas sobretudo em razões estruturais, muitas delas afloradas
ao longo desta publicação.
Esses problemas estruturais foram colocados a descoberto pela crise de dívida so-
berana que se seguiu à recessão internacional de 2008, levando ao pedido de ajuda
externa de Portugal em maio de 2011 e a um Programa de Ajustamento Económico
e Financeiro (PAEF) que se traduziu numa contração acentuada do PIB nos anos de
2011 a 2013 (-6.8%).
Essa contração, com origem na procura interna, foi minorada pelo contributo positivo
da procura externa líquida, a refletir o recuo das importações e o aumento muito signi-
ficativo das exportações, cujo dinamismo se tem mantido nos anos mais recentes (em-
bora a procura externa líquida tenha retomado um contributo negativo desde 2014, com a
forte recuperação das importações, mas já com um valor apenas residualmente negativo
em 2016) e constitui um dos aspetos mais positivos e importantes da recente evolução da
economia portuguesa.

Figura 1 – Variação anual do PIB em volume (%) e contributos da procura externa líquida e da procura
interna (p.p.).

No contexto da UE, segundo dados da Comissão Europeia, Portugal teve o terceiro
pior registo de crescimento económico acumulado entre 2000 e 2016 (4.2%, em
termos reais), apenas acima dos desempenhos da Grécia (-2.6%) e da Itália (0.7%), e mui-
to abaixo dos valores da UE (23.2%), da Área Euro (18.5%), da vizinha Espanha (27.1%) e,
sobretudo, da Irlanda, que evidenciou a maior subida (91.5%).

Ao nível da estrutura do PIB (a preços correntes), o dinamismo das vendas para o ex-
terior traduziu-se num máximo na intensidade exportadora de 40.6% em 2015 (29.3%
nos bens e 11.3% nos serviços) e um valor semelhante em 2016 (40.2%: 28.8% e 11.4%),
traduzindo uma forte subida nos últimos anos. De notar que, em 2009, o valor era ainda
apenas de 27.1%.
Registaram-se ainda aumentos de peso no consumo privado (de 64.6% em 1995
para 65.8% em 2016) e no consumo público (de 17.6% para 18.1%), apesar de uma
correção em baixa nos últimos anos face aos máximos registados, respetivamente, em 2012
(66.3%) e 2009 (21.4%), a refletir sobretudo os efeitos das medidas de austeridade durante
o PAEF, que também impediram um maior aumento do peso das importações (de 33.1% em
1995 para 39.1% em 2016, com um máximo de 40.8% em 2008).
O investimento foi a única rubrica que perdeu peso no PIB entre 1995 e 2016
(de 24.2% para 14.9% na FBC e de 23.3% para 14.8% na FBCF), embora até 2000 a ten-
dência tenha sido ainda de subida (para 28.0% no caso da FBCF), num contexto de recuo
das taxas de juro e crescimento económico ainda assinalável.
A partir do ano 2000, a descida da taxa de investimento foi quase ininterrupta e acen-
tuou-se de forma muito gravosa durante o PAEF, refletindo-se numa redução do stock de ca-
pital (investimento inferior à depreciação) e do potencial de crescimento económico do País.

A AEP considera ser necessário elevar a intensidade exportadora, que está ainda aquém dos valores apre-
sentados por países europeus de dimensão semelhante a Portugal.

Destaca-se também a forte progressão do grau de abertura ao exterior, refletindo
o aumento da intensidade exportadora, a par da subida do peso das importações no PIB.
Os dados da Comissão Europeia ilustram ainda, de forma clara, a obtenção, nos anos
mais recentes, de saldos positivos na balança de bens e serviços, que muito contri-
buíram para a correção do desequilíbrio externo, já apontado como um dos resultados mais
visíveis do PAEF.
De acordo com os dados oficiais da balança de pagamentos, do Banco de Portugal (com
uma quebra de série em 1996, o que não acontece nos dados da Comissão Europeia), o
nosso País registou em 2012, pela primeira vez desde 1948, pelo menos (o primeiro ano
com dados nas série longa do Banco de Portugal), um saldo positivo na balança de bens e
serviços, resultado que se consolidou desde então (ver ponto 1.5).

Em termos evolutivos, a forte contração da procura interna durante o PAEF refletiu
descidas acentuadas das principais componentes nos anos de 2011 a 2013, com quedas
acumuladas de 10.0% no consumo privado, 8.8% no consumo público e 30.7% na FBCF.
Nos restantes anos do período de análise, a procura interna contribuiu, na esmagadora
maioria das vezes, de forma positiva (e predominante) para o crescimento.

Na procura externa líquida, o período de maior contributo para o crescimento
do PIB ocorreu nos anos de 2011 e 2012, em que a par do dinamismo das exporta-
ções se registou uma contração acentuada das importações, no contexto do PAEF. Nos anos
de 2014 a 2016 voltou-se à tendência de alternância de contributos positivos e negativos
de pequena magnitude, em virtude da retoma das importações (em parte motivada pela
realização de despesa adiada durante o PAEF em consumo de bens duradouros e em inves-
timento, de elevado conteúdo importado) e da manutenção de um crescimento assinalável
das exportações, que entre 2010 e 2016 aumentaram 49.9% em termos reais.

Em termos de perspetivas de crescimento económico, o Banco de Portugal prevê, no
seu Boletim Económico de Junho, uma forte aceleração do PIB em 2017 (de 1.4% para
2.5%) e um abrandamento ligeiro nos dois anos seguintes (para 2.0% em 2018 e
1.8% em 2019), com uma alteração da sua composição, mais assente nas exporta-
ções e no investimento – que sobem de forma acentuada – e menos no consumo,
o que configura um padrão mais sustentável.
As previsões implicam que, em 2019, no final do horizonte de projeção, o PIB supere o nível
registado em 2008. No período 2017-2019, o crescimento do PIB deverá ser superior
ao projetado para a Área Euro, segundo o Banco de Portugal, traduzindo-se no reinício
do processo de convergência real, interrompido desde o início dos anos 2000.
As projeções de crescimento do Boletim Económico de Junho, revistas em alta face ao
Boletim de Março com a incorporação de informação mais favorável, ficaram significativa-
mente acima dos números de outros organismos nacionais e internacionais, pelo menos
relativamente a 2017 e 2018.

Em abril, o Governo incorporou no Programa de Estabilidade 2017-2021 previsões
de crescimento de 1.8% em 2017 e 1.9% em 2018, continuando depois a acelerar ao ritmo
de uma décima por ano até 2021, significando que apenas o valor para 2019 (2.0%) supera
a projeção do Banco de Portugal (1.8%). O Governo assume que as projeções não incor-
poram os efeitos das reformas estruturais no PIB, cuja quantificação não é apresentada no
Programa Nacional de Reformas.

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